A estenose da valva aórtica permanece como uma das doenças valvares cardíacas mais comuns, tendo alta prevalência em pacientes com mais de 75 anos de idade. A estenose valvar aórtica (EAo) é um estreitamento que ocorre nessa valva com o passar do tempo, dificultando que o sangue chegue a todos os órgãos do corpo. Caso não seja tratada, o paciente pode evoluir, a depender do grau de estreitamento, para óbito em meses. A EAo é causada na grande maioria dos casos pela aterosclerose, pode ser facilmente detectada no exame físico e confirmada com exames complementares, como o ecocardiograma. A TAVI (Trans Aortic Valvar Implantation) – Tratamento Percutâneo da Estenose Aórtica – se constitui como uma opção terapêutica menos invasiva e com grande benefício.
O coração humano possui quatro valvas cardíacas, duas separando suas quatro câmaras e outras duas separando os ventrículos esquerdo e direito das artérias aorta e pulmonar, respectivamente. A cirurgia cardíaca com o tórax aberto para troca ou plastia destas valvas foi por muito tempo a única opção de tratamento.
Na década de 70, um conceito de uma valva montada sobre um stent (dispositivo metálico de sustentação do lúmen do vaso que pode ser auto expansível ou expansível por cateter balão) surgiu como uma abordagem experimental. Muito se evoluiu desde essa época e nos anos 90 os primeiros casos de valvas montadas em stent foram implantadas em aortas de porcos em trabalhos científicos. Em 2000 desenvolveu-se uma prótese valvar montada em um stent que poderia ser utilizada em humanos. Assim, em 2002, Dr. Alan Cribier (emérito professor francês de Cardiologia Intervencionista) implantou a primeira valva montada em um stent expansível com cateter balão em humano. O procedimento foi um sucesso e considerado uma das maiores evoluções dos nossos tempos na Cardiologia Intervencionista.
Desde o procedimento índice até os dias de hoje, a técnica evoluiu muito e milhares de outros procedimentos já foram realizados em todo o mundo. O mesmo ocorreu com as próteses, que hoje apresentam ótima durabilidade e confiabilidade. No início estes procedimentos eram sempre feitos com anestesia geral. Na atualidade, com as próteses mais modernas, estas podem ser levadas ao coração através de um pequeno orifício de apenas de 1 cm na pele e o procedimento pode ser por anestesia local e/ou uma sedação consciente do paciente. A TAVI é uma evolução onde caminhamos a passos largos para procedimentos cada vez menos invasivos, sem necessidade de cirurgia aberta, menos cruentos e com um recuperação mais rápida para os pacientes.
Com a TAVI, o paciente tem menor tempo de internação hospitalar, e assim, é menos exposto a riscos de complicações hospitalares. Como não há necessidade de abertura do tórax como ocorre na cirurgia a céu aberto convencional, a recuperação é mais rápida e menos dolorida.
É nítida a mudança do perfil populacional brasileiro que está ficando cada vez mais idoso e com pessoas idosas em plenas condições de aproveitarem a sua melhor idade. A TAVI de início era indicada apenas a pacientes de alto risco cirúrgico, com comorbidades ou condições clínicas que contra-indicavam a cirurgia com tórax aberto. Novos trabalhos ampliaram esta indicação também para pacientes de moderado e baixo risco cirúrgico. Ou seja, o médico e o paciente podem decidir e optar pela melhor escolha no seu caso, quando adequadamente expostos os riscos e benefícios das opções terapêuticas. O FDA (Food and Drug Adminitration), importante órgão regulamentador na área de saúde, que regula a política de uso de dispositivos dos Estados Unidos, já validou e autorizou amplamente a indicação da TAVI, dado seus benefícios e resultados favoráveis em diversos estudos clínicos realizados.
A avaliação prévia do paciente deve ser feita cuidadosamente. Inclui a solicitação de exames complementares como os laboratoriais, eletrocardiograma, ecocardiograma, tomografia da aorta e cateterismo cardíaco. Um cardiologista intervencionista experiente precisa sempre ser consultado para definir a melhor opção de tratamento, que incluirá o tipo de valva a ser utilizada, as vias de acesso para o procedimento, os cuidados pré/pós operatórios e as possíveis intercorrências que o procedimento pode acarretar.
Eu, juntamente a minha equipe, estamos amplamente familiarizados com a técnica e já realizamos vários procedimentos com sucesso. Foi muito gratificante em todos os casos ver a recuperação rápida, alta hospitalar precoce (menor tempo de internação) e melhora clínica evidente dos pacientes por nós tratados.
Mostramos abaixo a foto de uma valva implantada percutaneamente em um paciente idoso que já tinha sido submetido no passado à cirurgia de revascularização do miocárdio. O procedimento foi feito por um pequeno orifício na perna e a valva foi implantada com sucesso, com rápida recuperação e alta do paciente, que se encontra bem, sem sintomas e apto para suas atividades habituais.


Esperamos que os pacientes possam usufruir desta opção terapêutica que representa uma evolução das mais empolgantes na Cardiologia Intervencionista moderna nos últimos tempos.
Um grande abraço!
